quinta-feira, 14 de março de 2013

Eu quero uma poesia!

Hoje é dia da poesia! Hoje é dia da palavra que cria novas imagens, novos sons e novas palavras!
 
Hoje eu quero uma poesia! Apenas uma poesia! Repleta de sons, de imagens e, principalmente, de palavras!
 
Hoje eu quero a poesia de Manoel de Barros, que tira e cria a sua poesia da simplicidades das coisas que se espalham pelo chão e pela mente! E que hoje alimentam o meu desejo, incontrolável, de ter e ler POESIA.






O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS, Manoel de Barros*


 

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.




*In: Memória inventada: infância. São Paulo: Planeta da Terra, 2003.

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